Chegou tarde em seu destino. Depois de um dia bastante cansativo de emoções estranhas só pensava em um bom banho e cama. Mas também imaginava se de fato conseguiria dormir. Mais uma semana começava e outra casquinha de ferida arrancada de um machucado antigo a fazia lembrar o quanto doía.
Quantas vezes precisamos passar por padrões em nossa vida para que sejamos finalmente aprovados? Pensava ela enquanto retirava as botas sentada na beira da cama.
Olhou em volta. Ambiente agradável o seu. Meia luz, mala no chão, seria desfeita apenas no dia seguinte, uma raridade, mas hoje não. Sem fome, beliscou um pedacinho de queijo apenas para constar ou tentar enganar o corpo de que havia comido.
Checou os celulares, a urgência de novos e-mails ou mensagens. Poderiam esperar até o dia seguinte. Separou pijamas, toalhas, em gestos automáticos de quem conhece a rotina.
O banho. Aquele era um tempo só seu.
Ducha forte, água bem quente massageando as costas, cabeça enfiada como se mergulhando em uma cachoeira escaldante. Inevitável poucas lágrimas correrem a face. Gosto salgado na boca, aperta os lábios. Ali reflete sobre tudo. Sua vida, o que faz, o que gostaria de estar fazendo. Sonhos ainda possíveis? Imagina. Quais?
Com o cabelo debaixo de um rolo atoalhado e vestindo seu hobby deita delicadamente em sua cama, encostando a cabeça no mundo de travesseiros, pensa: quanta contradição. Como pode uma decepção, mais uma, ser exatamente aquilo que a coloca livre novamente.
À sua frente, novamente, o nada. Ou então um infinito de possibilidades. Decide. Escolhe. É com o infinito de possibilidades adormecerá essa noite.
Levanta-se rápido para secar os cabelos. Melhor que os lençóis não se molhem agora.